A Dança que Sobreviveu ao Dançarino
Em vida foi uma sensação. As salas enchiam-se para ver o seu braço do arco; violinistas rivais estudavam-no com algo próximo do medo. Trezentos anos depois, podes amar esta faixa durante semanas e nunca chegar a saber quem a escreveu. Chamava-se Francesco Maria Veracini — e por todas as medidas da sua época, era uma estrela.
Nascido em Florença em 1690, levou o violino por toda a Europa — Veneza, Londres, Dresden — com uma técnica tão brilhante que perturbava as pessoas. Os melhores intérpretes da época mediam-se com ele, e muitas vezes saíam abalados. Há uma história famosa sobre um deles:
Era esse o efeito que ele tinha. Mas o brilho e o temperamento vinham num só pacote, e o de Veracini era vulcânico. Em Florença deram em chamar-lhe Capo Pazzo — algo como ‘o desmiolado’; menos gentilmente, ‘o louco-mor’. Bem tinha merecido o nome. Eis como:
Coxeou durante os trinta anos seguintes — continuou a compor, continuou a deslumbrar — e lentamente o mundo seguiu em frente. Quando morreu em Florença em 1768, a moda já mudara. As brilhantes sonatas Op. 1 que publicara em Dresden em 1721 — o conjunto de onde esta faixa é retirada — saíram discretamente do repertório. A estrela tornou-se uma nota de rodapé.
E, no entanto. Escuta a faixa três. A Giga — a dança saltitante que encerra a Sonata em Lá maior — ainda corre, ainda salta, ainda se exibe tal como fazia quando Veracini a atravessava a rasgar para assustar os seus rivais. O homem partiu há três séculos. A dança nunca coxeou. Nunca envelheceu. Simplesmente continuou em movimento.
Há uma justeza em David ressuscitá-la — um virtuoso flamejante e transgressor de fronteiras a estender a mão trezentos anos atrás a outro, e a reconhecer uma alma gémea. No arranjo de David e Franck van der Heijden — para violino, piano, guitarra e orquestra — a giga recupera o seu fogo, e Veracini, por uns minutos, é uma estrela outra vez.
«A arte, e a música acima de tudo, transcende o tempo,» diz David sobre o álbum. A faixa dois foi uma melodia tão famosa que ultrapassou o nome do seu compositor. A faixa três é a imagem ao espelho: um compositor que o mundo esqueceu, mantido vivo por uma única dança impossível de matar. A imortalidade, afinal, nem sempre se lembra do teu nome — às vezes limita-se a manter a música em movimento.
Immortal — David Garrett para a Deutsche Grammophon — chega a 9 de outubro de 2026: 20 faixas na edição padrão, 25 na deluxe, em digital, CD e vinil, com pré-encomendas já abertas na Deutsche Grammophon. Uma faixa de cada vez, continuamos a contar o álbum.