Carta ao Cérebro Entediado
Quero dizer-te uma coisa que talvez te surpreenda: a culpa não é tua. Não é preguiça, não é mau gosto, e não és “inculto”. É química. E, assim que perceberes a química, perceberás porque é que um homem cheio de tatuagens e com um Stradivarius anda discretamente a resolver este problema há vinte anos.
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O que os cientistas descobriramEm 2013, uma equipa de investigação do Montreal Neurological Institute — Valorie Salimpoor e Robert Zatorre — publicou um estudo que, em silêncio, reescreveu a forma como entendemos o prazer musical. Colocaram pessoas em aparelhos de ressonância cerebral, fizeram-nas ouvir música e mediram o que acontecia no preciso instante do prazer.
A resposta foi uma única substância química: a dopamina. Libertada numa região chamada núcleo accumbens — o mesmo centro de recompensa que se acende quando comemos algo delicioso, nos apaixonamos ou tomamos uma droga que nos faz sentir melhor. A música, afinal, é biologicamente recompensadora no sentido mais literal do termo.
Mas Salimpoor e Zatorre descobriram mais uma coisa. Algo que explica essa tua deriva em direção ao jantar.
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O senãoO cérebro não liberta dopamina apenas quando o som entra no ouvido. Liberta-a quando prevê o que está prestes a acontecer a seguir, e é depois confirmado ou agradavelmente surpreendido.
Esta é a arquitetura secreta de todas as canções que alguma vez amaste. Verso, sabes que o refrão está a chegar, aí vem o refrão — dopamina. Um gancho melódico sobe meio tom mais do que esperavas — mais dopamina. Um drop que vias aproximar-se desde quarenta segundos antes — euforia.
Mas quando o cérebro não tem mapa para o que vem a seguir — sem gramática, sem andaime, sem ideia — deixa de libertar dopamina. E arquiva a experiência sob uma só palavra: aborrecido.
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E é aqui que a música clássica se encontra com o teu cérebroO teu cérebro foi treinado, ao longo de milhares de horas, em música pop. Verso, refrão, refrão, ponte, refrão. Frases de oito compassos. Uma tarola nos tempos dois e quatro. Estes são os padrões que conhece de cor.
Agora: Brahms, Vivaldi, Beethoven. A música deles assenta no mesmo alicerce tonal que o pop — afinal, foram eles que inventaram a maior parte dele — mas as estruturas desenrolam-se em escalas de tempo radicalmente diferentes. Um andamento de sonata é um argumento de quinze minutos com três vozes. Uma sinfonia desenvolve um tema ao longo de quarenta. O contraponto pede-te que sigas duas melodias ao mesmo tempo. A recompensa está lá, à espera — mas é uma recompensa que o teu cérebro tem de merecer.
O teu cérebro, galante orgãozinho que é, tenta. Mas não tem o modelo. Por isso, não prevê. Por isso, não te recompensa. Por isso, começas a pensar no jantar.
É aqui que a maioria das pessoas desiste. Concluem que a música clássica não é para elas. Nunca ninguém lhes disse que o cérebro consegue aprender.
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Entra David GarrettEis algo interessante. Entra num concerto de David Garrett em qualquer cidade do mundo. Olha para a plateia. Metade veio porque viu um vídeo viral dele a tocar Viva la Vida num violino. A outra metade veio porque cresceu com Vivaldi.
Ao fim da noite, ambas as metades estão de pé, a aplaudir a mesma peça.
Como?
O projeto de vinte anos de Garrett — os crossovers, os mashups, os arranjos rock de Paganini — não é aquilo a que os seus críticos por vezes chamam. Não é “clássica facilitada”. Não é “vender a alma”. É, quase por acaso, neurociência aplicada.
Quando ele abre uma peça com um riff de rock que o teu cérebro já conhece, o teu sistema de previsão fixa-se. Padrão familiar. Dopamina. Depois, a meio da frase, o riff desliza para uma sequência barroca — uma surpresa agradável. Mais dopamina. O teu cérebro está agora a processar alegremente uma linha de Vivaldi, e nem sequer deu pela troca.
Ele andou, todo este tempo, a construir-te uma ponte.
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O que a investigação confirma agoraUma investigadora chamada Psyche Loui — primeiro em Wesleyan, agora em Northeastern — passou anos a conduzir uma experiência extraordinária. Expõe as pessoas à escala de Bohlen-Pierce, um sistema musical artificial baseado numa razão de frequência de 3:1 em vez da oitava de 2:1 que toda a música ocidental usa. Para o teu cérebro, é um disparate total. Uma escala que nenhum ouvido humano alguma vez evoluiu para esperar.
Ao fim de algumas sessões de escuta orientada, acontece algo notável. Os cérebros dos participantes começam a prever que notas vêm a seguir. E, assim que preveem, começam a gostar do que ouvem. Música que soava a ruído no primeiro dia soa a música ao quarto dia. O cérebro construiu uma nova gramática a partir do nada.
Não existe tal coisa como um cérebro que “não consegue” amar a música clássica. Existem apenas cérebros a que não foi dado tempo suficiente, nas salas certas, com os guias certos.
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Então, caro leitorÉ isto que David Garrett faz. É para isto que serve a The Strings Society. Não porque achemos que precisas de ser convertido, ou educado, ou corrigido. Não precisas. Já estás programado para isto. Só ainda não te apresentaram.
Vem pela Viva la Vida. Fica pelo Beethoven que não sabias que estava à tua espera.
O teu núcleo accumbens tem planos para ti.
— The Strings Society