Uma marcha para o FBI
A faixa bónus vinte e dois era uma Amesterdão que não o era. A faixa bónus vinte e três é uma marcha russa, escrita para Chicago, que acabou na rádio americana.
Os factos. A faixa bónus vinte e três dura um minuto e trinta segundos. É a Marcha da ópera O amor das três laranjas de Serguei Prokofiev, da suite que ele próprio tirou da ópera. O crédito é o mesmo da faixa bónus vinte e dois.
Em 1918 Prokofiev vai para a América. Depois de concertos em Chicago, pedem-lhe uma ópera.
A história é de Carlo Gozzi, um conto veneziano do século XVIII, que lhe chega através do encenador russo Vsevolod Meyerhold.
A ópera é cantada em francês. O inglês de Prokofiev era limitado, e o russo não teria agradado ao público americano.
Estreia em Chicago a 30 de dezembro de 1921, no Auditorium Theatre, dirigida por Prokofiev. A soprano Mary Garden, então à frente da Chicago Opera, tinha-a recuperado depois de ter sido cancelada.
O público gostou. Alguns críticos não sabiam o que pensar. Um chamou-lhe isto:
«Jazz russo com enfeites bolcheviques.»
A Marcha foi a parte que viajou. Em 1922 Prokofiev fez ele próprio uma versão para piano.
De 1944 a 1958, a rádio CBS transmitiu uma série dramática chamada The FBI in Peace and War. O genérico era a Marcha de Prokofiev.
Em 1955 um colunista do The Washington Post reparou, com alguma surpresa, que o genérico do FBI era de um compositor soviético.
No repertório de Garrett, Prokofiev quer dizer o Primeiro Concerto e a Segunda Sonata, mais a Dança dos cavaleiros em Alive. Ao lado da Marcha há uma só gravação: Immortal.
Noventa segundos.
Esta série não para de perguntar o que leva a música para além das pessoas que a fizeram.
A resposta da faixa bónus vinte e três é uma melodia boa o bastante para se pedir emprestada. Na América a ópera continuou rara. A Marcha foi parar à rádio.
Immortal — David Garrett para a Deutsche Grammophon — a partir de 9 de outubro de 2026: 20 faixas na edição padrão, 25 na deluxe, em digital, CD e vinil, na Deutsche Grammophon. Uma faixa de cada vez, continuamos a caminhada.
Fontes e notas: o crédito do álbum tal como a Universal Music o indica para a edição deluxe; a encomenda, as fontes, a língua, a estreia e a receção da ópera a partir da literatura de referência sobre O amor das três laranjas e da história da produção da Opera Philadelphia; a frase do crítico tal como a cita Michael Pisani (The Musical Quarterly, 1997); a versão para piano, a série de rádio e a coluna de 1955 a partir da WRTI; as gravações de Garrett a partir de david-garrett.com. As citações são traduzidas por nós.