Até as Más Canções São Mestras
Está a descrever como escolheu as canções para a Millennium Symphony: meses a ouvir em digressão, quatrocentas ou quinhentas faixas auditadas para encontrar vinte e cinco que valesse a pena orquestrar. E depois, quase de passagem:
Ouço imensas canções más, porque encaro isso como uma atividade educativa. Assim sei que música nunca levarei para a minha oficina. Não nos educamos apenas com boas experiências.
Lemos duas vezes. Depois rimos, da forma como nos rimos de algo que afinal se revela mais sério do que parecia.
Porque eis um violinista que poderia passar o resto da vida a ouvir apenas Bach. Que tem um Stradivarius e dois Guadagninis em casa. Que conquistou, mais do que quase ninguém vivo, o direito de ser um conhecedor — de guardar os ouvidos como porcelana rara e só deixar entrar aquilo que já está consagrado como grandioso.
E o que faz ele, em vez disso? Ouve as piores canções da rádio. De propósito. Porque são úteis.
• • •
As horas de má escutaEsta é a parte do ofício que ninguém romantiza.
Cinco ou seis meses em digressão, sentado com as tabelas do mundo inteiro, fazendo a cada faixa a mesma pergunta: porquê? O que falta aqui que me teria feito importar? Por que razão este refrão não faz nada? Por que razão esta progressão de acordes é insípida?
Não se responde a isso ouvindo apenas aquilo que já se ama.
Garrett passa boa parte da mesma entrevista a descrever o que se perdeu. As canções encolheram, diz ele. Vinte e cinco segundos para nos agarrar. Já não há pontes, já não há secções instrumentais, três ou quatro acordes. Não é nostálgico quanto a isso — é realista. Explica, muito secamente, porque ele próprio reduziu Stairway to Heaven a três minutos no Rock Revolution: “Não sou tão tolo ao ponto de entrar na Universal International e dizer-lhes que tenho uma versão de nove minutos. Perguntar-me-iam: ‘Sr. Garrett, quanto tempo dura o seu contrato?’”
Mas depois descreve as exceções. A abertura de guitarra dos Red Velvet que “tinha de se tornar uma secção de metais.” Welcome to the Black Parade como o Cânone de Pachelbel com lápis de olhos. The Joker and the Queen, uma das peças mais simples do disco, em que as pequenas linhas melódicas eram “tão precisas que se consegue fazer algo de mágico com elas, com uma orquestra.”
É isso que as horas de má escuta nos compram. O reconhecimento instantâneo, sem hesitações, da boa canção quando ela entra pela porta.
• • •
O violino de cem eurosA mesma atenção generosa surge mais à frente, quando a conversa passa das canções para os instrumentos.
Tem um Stradivarius. Tem dois Guadagninis. Perguntam-lhe por eles. A resposta não é a que se espera:
Um violino que vale cem euros, trato-o da mesma forma que o Stradivarius — com respeito. É o mesmo que a forma como se trata as pessoas. O tempo foi o mesmo. O esforço foi o mesmo. Pode não ser um Stradivarius, mas não se trata de dinheiro. Trata-se de respeito.
Citamo-lo na íntegra porque a paráfrase o torna mais pequeno. O homem do instrumento de vários milhões de euros diz-nos que o trabalho cuidadoso de alguém num violino de cem euros mereceu o mesmo cuidado. Uma filosofia de escuta, contrabandeada para dentro de uma frase sobre madeira.
• • •
O fio condutorQuanto mais tempo se passa com a entrevista, mais se vê o fio condutor.
Ouve canções más porque as más ensinam. Toca o violino barato com as mesmas mãos com que toca o Stradivarius, porque quem o fez o fez a sério. Irrita-se com cinco mil iPhones num estádio — e admite, no fôlego seguinte, que ele próprio filmou Rocket Man na despedida de Elton John, em Berlim. Não fingirá estar acima do impulso. Apenas repara no que ele custa.
É isto que queremos dizer, neste site, quando usamos a palavra ofício. Não as medalhas. Não os Stradivari. Não as arenas esgotadas. As horas pouco espetaculares — as horas das más canções, as horas do violino de cem euros, o paciente não — que tornam possíveis as horas espetaculares.
• • •
Por isso, eis aqui, para a parede por cima da secretária, a pequena frase que estamos a roubar a esta entrevista e a guardar:
Verdade na música. Verdade nos arranjos. Verdade nos concertos de que saímos a meio, nos livros que pousámos, nos filmes que gostaríamos de não ter pago, nas amizades que devíamos ter deixado mais cedo. As más também nos estão a ensinar — se estivermos a prestar atenção suficiente.
E prestar atenção suficiente sempre foi a verdadeira descrição de funções de Garrett, não foi?
— A Equipa Editorial de The Strings Society