A História que Ninguém Escrevia
Há uma vertigem particular em descobrir, semanas depois, que havia mais alguém na sala.
Escrevemos duas vezes sobre aquela noite — a igreja de Saanen, o Del Gesù Club a tocar em público pela primeira vez ao fim de quatro anos, o violino de Menuhin nas mãos de David Garrett no final. Julgávamos ter estado tão perto daqueles instrumentos quanto um ouvinte pode estar.
Depois enviámos catorze perguntas a Frédéric Chaudière, e a meio das respostas ele mencionou, sem cerimónia, que também lá tinha estado.
Não estava a ouvir o mesmo que nós. Faz violinos em Montpellier desde 1986 — uma oficina que se tornou casa, com a filha Lucie a dirigi-la ao seu lado e o filho Octave à bancada. Fez uma cópia do « Alard », o del Gesù de 1742, para o Musée de la musique de Paris. Construiu instrumentos para Ruggiero Ricci, para Norbert Brainin do Quarteto Amadeus, para Jean-Jacques Kantorow. Desde 2016 é perito junto do tribunal da relação de Montpellier: quando um juiz francês precisa de saber se um violino é realmente o que diz ser, é a ele que pergunta. Escreve para The Strad. Publicou um livro pela Actes Sud.
Respondeu às catorze perguntas, brevemente, como responde um homem de pé diante da sua bancada. Depois fizemos mais três, e uma delas abriu-se.
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Começámos onde começa todo o escritor romântico do violino, pedindo-lhe que estragasse a coisa.
The Strings SocietyRepete-se sempre que um violino guarda a memória do que nele foi tocado. O senhor, que os abre: é verdade? E, se é, onde é que se vê? Não procuramos a resposta bonita — procuramos a sua.
Frédéric ChaudièreEncontram-se todo o tipo de vestígios nos violinos. Por dentro, encontra-se pó, fibras de tecido, cheiros de perfume, de cera, de cola. Por fora, encontram-se marcas de unhas, de arco, de barba no lugar do queixo, de almofada de ombro. Os cavaletes sucessivos escavam o tampo sob os seus pés, e nas deformações da abóbada pode ler-se se a alma esteve demasiado tensa. Esses vestígios são as marcas mais visíveis, mas há também a impressão sonora das músicas que o fizeram vibrar. Um violino que nunca serviu resiste e não se entrega da mesma maneira que um que tocou muito.
Não estragou nada. Apenas deslocou a coisa: da poesia para a prova. Perfume, cera, cola, uma barba, um cavalete que se afunda devagar no abeto. A memória existe. Só que é feita de coisas comuns.
The Strings SocietyUm abeto cresce duzentos anos, é abatido, seca durante anos, e só então se torna um violino que tocará três séculos. Quando escolhe hoje uma peça de madeira, escolhe-a para alguém que não nasceu. É um pensamento que o acompanha à bancada, ou um pensamento de domingo?
Frédéric ChaudièreFaço violinos, claro, para os músicos que os encomendaram, mas trabalho sobretudo para o próprio objeto. O violino tem de sobreviver ao seu dono e servir para um uso muito amplo. Tem de poder tocar jazz, ou Mozart, ou tango. Tem de poder soar numa sala pequena ou ao ar livre, com microfone.
Sobre a secagem quis acrescentar uma precisão.
Frédéric ChaudièreA madeira que uso pode ter trinta anos, mas em geral tem antes uma dezena.
The Strings SocietyE um violino morre? Se sim — de quê?
Frédéric ChaudièreA madeira acaba por perder elasticidade, mas em prazos muito longos. Bem tratados, os violinos continuam a funcionar ao fim de cinco séculos: alguns dos primeiros violinos, feitos por Andrea Amati na década de 1560, ainda hoje se tocam, nos palcos das grandes salas.
E depois há violinos que morrem pelo caminho — o caruncho, os maus restauros, as revoluções. O saque das Tulherias, e os violinos do Rei atirados pelas janelas.

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Dois nomes carregam toda a mitologia do violino, e um século de escrita empregou-se a repetir que um é o geómetra e o outro o génio. Pedimos-lhe que pusesse a mitologia de lado por um minuto.
The Strings SocietyCom um Stradivari numa bancada e um del Gesù na outra, o que vê o senhor, com os seus olhos e com as suas mãos, que verdadeiramente os separa?
Frédéric ChaudièreVê-se logo que del Gesù trabalhava depressa, que ia ao essencial para que soasse, e que Stradivari, com o seu sentido do detalhe, da simetria e do controlo, tinha outras prioridades.
The Strings SocietyDe del Gesù, sobretudo no último período, fala-se de uma mão apressada, de efes que não se parecem, de uma irregularidade a que chegámos a chamar génio. É essa irregularidade que faz o som — ou somos nós que lhe fazemos dizer o que nos convém?
Frédéric ChaudièreAs irregularidades não fazem o som. Mas ao trabalhar depressa aprende-se a antecipar, a adivinhar a natureza dos materiais. Tem-se um controlo diferente do que dá a obsessão pelo detalhe.
É a demolição tranquila de todo um género de nota de programa, e merece ser lida duas vezes. A efe torta não é a causa de nada. O que a velocidade produziu foi outra relação com a matéria — um homem obrigado a ler a madeira que tinha à frente em vez de lhe impor um desenho.
O que nos traz de volta à sala que partilhámos.
The Strings SocietyUm clube cujo objetivo é reunir uma vez por ano instrumentos que o resto do tempo vivem em cofres, para os comparar de ouvido: o que espera um luthier de uma sala assim?
Frédéric ChaudièreMuitos dos violinos expostos no Del Gesù Club são tocados em público por músicos profissionais durante todo o ano. Poder ouvi-los uns a seguir aos outros ensina imenso. Comparando a sua arquitetura, percebe-se melhor porque é que os instrumentos do último período são mais potentes, ou mais escuros.
The Strings SocietyEstivemos em Saanen naquela primeira noite pública. Nós ouvimos beleza. O que teria o senhor escutado?
Frédéric ChaudièreEstive presente nesse concerto, que apreciei muito. Certos violinos são mais interessantes do que outros, alguns têm melhores agudos, outros são luminosos nos graves. Há também desilusões, notas que rolam, mis que assobiam.
Perguntámos-lhe de que é feita uma desilusão. Como é que um violino que vale mais do que uma casa não cumpre a promessa, e de quem é a culpa.
Se falamos de sonoridade, certos violinos preciosos são extraordinários, mágicos, mas outros são mais comuns ou até desiludem. Os grandes momentos em concerto resultam da conjugação de fatores diferentes: é preciso um violino mágico, um intérprete genial, uma acústica generosa e uma partitura maravilhosa.
Quatro coisas, e apenas uma é o violino. Quem já se sentou numa sala à espera de ser tocado e foi para casa sem o ser sentiu isto sem ter palavra para o dizer. Aqui está a palavra, dada por um homem que fabrica a primeira das quatro: o instrumento é um quarto da noite. O resto é o intérprete, a sala e a própria música — e qualquer um dos três pode recusar-se.
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Passou meses com o « Alard » para o Musée de la musique. Queríamos saber o que ensinam meses de cópia, que as medidas não ensinam.
The Strings SocietyO que aprendeu nas mãos que nem o olho nem as medidas lhe teriam dado?
Frédéric ChaudièreHá coisas que não se podem medir. O toque de um pedaço de madeira é impossível de descrever. E, no entanto, é capital. E há detalhes que só se podem observar quando se tem o violino nas mãos.
The Strings SocietyOnde passa exatamente a fronteira entre a cópia e a falsificação? Na intenção, na etiqueta, no verniz, no silêncio de quem vende?
A fronteira é ténue, mas existe. Por vezes as cópias muito boas são transformadas em falsificações por negociantes pouco escrupulosos, quando regressam ao mercado. E isso é particularmente difícil de detetar quando ganharam uma bela pátina de uso.
Convém ler devagar esta última frase, porque contém um pequeno horror. A cópia não se torna falsificação na oficina. Torna-se décadas mais tarde, noutras mãos, depois de o tempo ter feito o envelhecimento que nenhum falsificador saberia fazer. Quem a construiu é inocente e o objeto é culpado, e daqui não há nada que possa fazer.
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Em 1936, um Stradivari de 1713 foi roubado no Carnegie Hall. Esteve desaparecido quase cinquenta anos — tocado em segredo, sob outro nome, pelo homem que o levara. Chamam-lhe o « Gibson », e Frédéric Chaudière escreveu um livro sobre ele.
Perguntámos porquê esse. Respondeu em duas frases.
Frédéric ChaudièreO Gibson Stradivari de 1713 foi-me confiado por Norbert Brainin para que eu lhe fizesse uma cópia. Vi-me metido nessa história.
Então voltámos a perguntar, a sério.
Frédéric ChaudièreBrainin tinha comprado um violino meu antes de adquirir o Gibson. Quando quis vender o Gibson, pediu-me que fizesse uma cópia bastante fiel. Tive o Gibson na oficina durante seis meses, sabendo que a história do violino era tão importante como o próprio violino.
Estava convencido de que alguém se ia apoderar dessa história e escrevê-la.
Passaram dez anos e acordei uma noite a perguntar-me se essa história teria saído nalgum lado. Fiquei um bocado deitado, à procura. No fim levantei-me, para a começar a escrever.
Dois meses depois enviei o manuscrito à Actes Sud, que o publicou de imediato.
Detenhamo-nos na forma desta história. Um violino desaparecido há meio século fica seis meses na sua bancada enquanto ele o copia, e todo esse tempo ele está certo — não esperançado: certo — de que alguém o vai escrever. A história é boa demais para ficar muda. Alguém o fará.
Depois passam dez anos e ninguém o faz. E uma noite o pensamento chega à hora a que os pensamentos chegam, e ele fica no escuro a repassar tudo o que leu, à procura do livro — e o livro não está lá. Então levanta-se.
Dois meses. Depois a Actes Sud.

Tínhamos-lhe perguntado, à parte, se um instrumento que se esconde envelhece de outra maneira do que um que se mostra.
Frédéric ChaudièreAs coisas que se escondem são muito significativas e os violinos que se escondem tendem a envelhecer depressa. O Gibson apanhou um bom golpe de velhice nos seus cinquenta anos de clandestinidade.
E sobre a escrita:
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É perito judicial. Alguém entra convencido de ter um tesouro — às vezes a única coisa que o pai lhe deixou. Não é. Perguntámos como se diz isso, e se um perito tem o direito de ter em conta o que uma atribuição representa para quem a traz, ou se tê-lo em conta já seria começar a mentir.
Frédéric ChaudièreDigo a verdade aos clientes e eles fazem dela o que quiserem.
Acontece também que uns clientes tenham um tesouro e que um dos maiores peritos se engane ao dizer-lhes que é uma cópia.
Essa segunda frase é toda a resposta, e aponta para um violino: o « Rovelli », del Gesù de 1742, objeto de um artigo seu na The Strad em junho passado.
Frédéric ChaudièreO Rovelli estava corretamente atribuído até que um perito muito importante o declarou falso. Tive de lutar para restabelecer a autenticidade desse del Gesù.
Não nomeia o perito, e nós não perguntámos. Mas repare-se no que esta história faz à forma do seu ofício. O perigo que descreve não é o homem que acredita demais. É a autoridade que diz não — e se engana, e em quem se acredita, por ser quem é. Uma atribuição pode ser retirada só pela reputação, e recuperá-la exige uma batalha.
O Rovelli, esse, não estava em Saanen. Tinha sido apresentado três anos antes, no Del Gesù Club de Berlim — o que faz lembrar uma coisa fácil de esquecer depois da noite de julho: o clube existia havia anos antes de se tornar público, e aqueles violinos já se comparavam entre si, em salas privadas, longe de qualquer palco. E entre eles um violino que um grandíssimo perito declarara falso.
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The Strings SocietyFez violinos para músicos que tinham tido os grandes antigos nas mãos. Quando um músico experimenta um instrumento na sua oficina, sabe antes dele que é o certo?
Frédéric ChaudièreTemos indicações sobre a qualidade sonora dos violinos no momento em que os desbastamos. Pode haver surpresas, boas ou más, mas o veredicto cai ao fim de alguns segundos, quando o músico pousa o arco nas cordas.
Meses de trabalho. Duzentos anos de árvore. Uma dezena de anos de secagem. E um veredicto em alguns segundos.

The Strings SocietyA oficina tornou-se uma casa: Lucie, Octave. Num ofício de mãos, o que se transmite realmente?
Frédéric ChaudièreA transmissão faz-se pela escuta, pela discussão e pela observação. A sensibilidade ao toque, aos cheiros, aos volumes, aos sons transmite-se lentamente, e é mais fácil quando se nasceu nesse ambiente.
Terminamos todas as nossas conversas do mesmo modo: com quem devemos falar a seguir, e o que devemos perguntar-lhe? Devolveu-nos a sua própria casa.
Frédéric ChaudièreTerão de falar com o Octave para a construção, com a Lucie para a comunicação e a organização da oficina, e com a Adèle para a comercialização.
É o que faremos.
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Fomos ter com Frédéric Chaudière à espera de que nos dissessem que a madeira tem alma. Disseram-nos, em vez disso, que a madeira tem pó lá dentro, e fibras, e o cheiro do perfume de alguém; que a efe torta não é o segredo; que o violino é um quarto de uma grande noite; e que uma cópia é feita para impressionar enquanto uma falsificação é feita para enganar.
E depois, no fim, a coisa menos prática que um homem prático alguma vez admitiu: que ficou acordado uma noite, dez anos depois de um violino roubado ter deixado a sua bancada, à espera de uma história que ninguém tinha escrito — e se levantou para a escrever ele próprio.
Os instrumentos sobrevivem a todos os que lhes tocam. É todo o ofício, e ele sabe-o melhor do que ninguém: escolhe madeira para músicos que não nasceram. Mas as histórias não sobrevivem a ninguém sozinhas. Alguém tem de se levantar.
— S.
Entrevista realizada por escrito, em francês, entre agosto e setembro de 2026, e publicada com a sua aprovação.
Fotografias © Chaudière Violins, photo M. Mosconi.