O outro Nováček
A faixa doze nunca parava. Durante dois minutos e cinquenta e sete segundos o violino correu sem tomar fôlego, e quando finalmente parou, deixou um homem de pé no silêncio: Ottokar Nováček, o violinista a quem o coração obrigou a pousar o instrumento pouco depois dos trinta anos.
A faixa treze é música da noite. E a história dos Nováček ainda não acabou.
Primeiro, os factos. A faixa treze dura três minutos e quatro segundos. É o Nocturno de O Festim de Baltasar, op. 51, de Jean Sibelius. Se esse número de opus te soa familiar, é normal: a Valse sentimentale de Tchaikovsky, a faixa cinco, também é um op. 51. Pura coincidência.
O crédito já o conhecemos: Arr. Garrett / Haywood for Violin, Piano, Guitar & Orchestra. Julien Quentin ao piano, Franck van der Heijden à guitarra, Orchestra the Prezent dirigida por John Haywood. É a mesma equipa e o mesmo par de arranjadores da faixa onze, onde dissemos que Haywood voltaria para o Sibelius. Aqui está ele.
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Helsínquia, 7 de Novembro de 1906. O Teatro Sueco está esgotado para uma peça nova de Hjalmar Procopé, Belsazars gästabud: o festim de Baltasar, em sueco, tirado do Livro de Daniel. O rei da Babilónia bebe pelos vasos sagrados do Templo, vê uma mão escrever na parede e antes do amanhecer está morto.
Procopé deu ao rei duas mulheres. Leschanah é uma rapariga judia enviada para o matar. Khadra é a sua bailarina e amante; dança uma dança da vida e uma dança da morte, e uma cobra mata-a. No fim da noite, estão os três mortos.
Sibelius escreveu a música para uma pequena orquestra de teatro e dirigiu ele próprio a estreia. A peça teve vinte e uma récitas, até Janeiro de 1907. Depois desapareceu. Terias dificuldade em encontrar alguém que a tenha visto em cena desde então.
A música ficou. Em 1907 Sibelius tirou quatro números da partitura e fez com eles uma suite de concerto, a op. 51, e hoje a suite é muito mais conhecida do que a peça alguma vez foi. O que Garrett toca é o seu terceiro andamento. No teatro era o prelúdio do segundo acto, Notturno: música ouvida no escuro, antes de o pano subir sobre a noite.
As palavras na parede, no Livro de Daniel, são mene, mene, tekel: contado, contado, pesado. Foste pesado na balança, diz o profeta ao rei, e foste achado em falta.
Agora recua dois anos, na mesma cidade.
Helsínquia, 8 de Fevereiro de 1904. Sibelius dirige a estreia do seu Concerto para violino em ré menor, o único concerto que alguma vez escreveu. O solista é o concertino da orquestra de Helsínquia, que também ensina violino na escola de música da cidade. Tinha vindo para norte, do Banato, dez anos antes.
Chama-se Victor Nováček. Era o irmão mais novo de Ottokar.
Tinham o mesmo pai, Martin, e em miúdos andavam em digressão com ele como o quarteto de cordas da família Nováček. Enquanto Ottokar tocava em Leipzig, em Boston e em Nova Iorque, Victor tinha ido para a Finlândia. Segundo a história da orquestra de Timișoara, a cidade onde Victor nasceu, tornou-se o conselheiro de Sibelius para a escrita do violino enquanto o concerto era composto.
A estreia correu mal. O concerto estava destinado a Willy Burmester, um virtuoso alemão, e porque é que não foi ele a tocá-lo já foi contado de mais de uma maneira. Segundo uma versão, Nováček queixava-se nos ensaios das passagens rápidas.
A crítica que ficou foi a do crítico de Helsínquia Merikanto:
«Nováček não era realmente um intérprete magistral.»
Ao concerto, escreveu Merikanto, só conseguia dar em parte «aquele brilho e aquela segurança radiosa que são absolutamente necessários numa peça virtuosística deste género».
Sibelius retirou o concerto. «O primeiro andamento tem de ser reescrito», escreveu. Cortou-o, apertou-o, e em Outubro de 1905 voltou a ouvir-se, em Berlim, com Karel Halíř como solista e Richard Strauss na direcção. É esse o concerto que hoje o mundo inteiro toca. Tanto quanto conseguimos apurar, Victor Nováček nunca o tocou em público.
Ottokar estava morto havia quatro anos quando o irmão entrou em palco em Helsínquia. Victor morreu lá em 1914.
Há mais uma pessoa nesta história que queria ser o homem do violino.
O próprio Sibelius. «O violino arrebatou-me», recordava, «e durante os dez anos seguintes o meu desejo mais querido, a minha maior ambição, foi tornar-me um grande virtuoso.» Começou tarde, na adolescência, e tinha medo do palco. Em Janeiro de 1891, estudante em Viena, fez uma audição para a Filarmónica de Viena. Chumbou, e segundo um relato desfez-se em lágrimas.
Em vez disso, escreveu para o violino. O Nocturno escreveu-o para uma orquestra de teatro, sem violino solista nenhum.
O violino pede-o emprestado pelo menos desde 1911, quando Michael Press publicou em Berlim um arranjo para violino e piano. Na faixa treze vai parar às mãos de um violinista que conseguiu: o miúdo que perdia o sono na classe de Zakhar Bron, como a faixa doze recordava.
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Diz «Sibelius» a um violinista e terás uma só resposta antes de acabares o nome: o Concerto.
Da faixa oito à faixa onze, o nome famoso chegava sem a sua peça famosa, porque Garrett já a tinha gravado. A faixa doze quebrou o padrão ao escolher precisamente a peça famosa.
A faixa treze traz o padrão de volta, mas do avesso. Garrett gravou concertos de Mozart, Tchaikovsky, Mendelssohn, Brahms e Bruch. Tanto quanto conseguimos apurar, nunca pôs o de Sibelius num disco. Em vez dele, escolheu três minutos de uma peça que já ninguém põe em cena.
E pô-los logo a seguir a Nováček.
Esta série continua a fazer uma só pergunta: o que é que realmente leva a música para lá das pessoas que a fizeram?
A resposta da faixa dez foi que a imortalidade distribui o mérito quer queiras quer não. A da faixa onze, que é capaz de dar à tua música um nome que tu nunca lhe deste. A da faixa doze, que às vezes a música sobrevive simplesmente ao corpo que a fez.
A resposta da faixa treze é menos confortável. A imortalidade tem a sua própria lista de convidados, e chegar primeiro não te garante a entrada. Victor Nováček tocou o Concerto de Sibelius antes de mais ninguém no mundo, e a história do concerto lembra-se dele sobretudo como a razão por que teve de ser reescrito. A peça de Procopé encheu um teatro durante vinte e uma noites, e desapareceu.
Os irmãos Nováček estão a uma faixa de distância neste álbum. Só um deles está nele.
Immortal — David Garrett para a Deutsche Grammophon — chega a 9 de outubro de 2026: 20 faixas na edição padrão, 25 na deluxe, em digital, CD e vinil, com pré-encomendas já abertas na Deutsche Grammophon. Uma faixa de cada vez, continuamos a contar o álbum.
Fontes e notas: o crédito do álbum tal como o imprimem a Deutsche Grammophon, a loja da DG e o david-garrett.com (verificados a 26 de Setembro de 2026); a peça de Procopé, a estreia e as récitas, a música de cena e a suite de 1907, segundo a Sibelius One e as obras de referência sobre Sibelius; a família e a carreira de Victor Nováček segundo as biografias de referência em alemão e a história da Filarmónica do Banato, em Timișoara; a estreia de 1904, a crítica de Merikanto e a carta de Sibelius tal como as cita em inglês a Interlude, traduzidas do inglês; as palavras de Sibelius sobre o violino e a audição de 1891, segundo a nota de programa da Orquestra Sinfónica de Boston, traduzidas do inglês; o arranjo de Michael Press de 1911, segundo o IMSLP. Não indicamos o ano de nascimento de Victor Nováček, porque as fontes divergem, e deixamos de lado a questão de porque é que Willy Burmester não tocou a estreia, porque os relatos diferem.